quarta-feira, 27 de novembro de 2019

marujo


leitor de silêncios
meu amor é mar
por onde navego sem bússolas nem mapas

(Bianca Velloso)

casa


depois de atravessar
longos versos emaranhados
e marulhados sentimentos
encontro o caminho de casa
.
a gente casa
:
casamento de amor
só de amor e mais nada
porque o amor em si se basta
e é mais tudo que todo o resto
.
tudo volta a fazer sentido
porque o amor é casa

(Bianca Velloso)

sexta-feira, 8 de junho de 2018



é no abrupto dos dias
que acontecem os inícios e os fins
.
viver é essa dor latente
:
olha como são belas aquelas cores
.
aquelas cores nas quais não podemos tocar
.
agora escuta
...
é o universo a gargalhar de nós

(Bianca Velloso)

terça-feira, 5 de junho de 2018

repetir
.
repetir
.
redundar à exaustão
.
dizer as mesmas coisas com outras palavras
.
até que se esgote todo o pensar
.
bom mesmo é quando o pensamento vem
s
 o
   l
    t
     o

e

d
 e
  s
   c
    o
   n
  e
 x
o

bom mesmo é ter no que pensar
:
para além do trato cotidiano

(Bianca Velloso)



vivo com foco no presente
num agora sem imediatismos
eu, que tenho aprendido a ser perene
.

teu nome ecoa aqui. tal qual o mar. tal qual o mar que vem e que vai. vem e vai. e vem... e eu hermeticamente imersa na poesia que teu nome principia. é sempre o mar. é sempre água o que trazes contigo. ou será a água que te traz a mim?
.
parte de mim crê no além. outra parte diz que tudo é fantasia. e já nem sei se acreditar faz mal ou bem. a parte que crê às vezes parece sisuda demais. diz que não devo invocar teu nome em vão. que isso pode te aborrecer, te prender... diz que preciso te deixar em paz. a paz às vezes é tão insossa, não é não?

a parte que não crê não é nada científica, muito pelo contrário. e, a despeito da saudade e dos arrependimentos, é brincalhona e curiosa. gosta de cambalhotas e gargalhadas. ela me diz que estás livre, independentemente do meu pe(n)sar. sabe muito bem que pertencemos, tu e eu, a mundos diferentes: o mundo de ser e o de não ser. mas gosta de misturar, de miscigenar, de fazer de nós universos distintos capazes de se visitar.

por isso fiz de ti este interlocutor sempre pronto a escutar e preencher meus silêncios. gosto quando tu vens a fazer cócegas na memória, a me lembrar de que tudo é transitório, menos o amor.
.

a gente tem medo de falar  que ama. amor não é tesão. nem posse. amor tem a ver com afinidade. com liberdade. com o que nos une. o amor é a melhor parte da humanidade.

(Bianca Velloso)


sábado, 2 de junho de 2018

Curumim

o mais complicado, Curumim
são esses dias
em que a gente precisa
driblar a existência
essa coisa de andar por fora
:
fora da linha
fora da lei
fora da casinha
fora do acaso
viver às margens
...
dentro do espaço apertado
(e apartado)
que a história nos impõe
:
o vazio
o frio
o descaso
a íntima intimidação de todo dia
.
não, Curumim
a gente não vai aceitar esse espaço
esse não é o nosso espaço, Curumim
esse, definitivamente, não é o nosso espaço
nosso espaço é imenso
é infinito
o nosso espaço, Curumim
é a igualdade
onde somos todos gente
o nosso espaço, Curumim
é o espaço do amor
:
e por isso lutamos
.
o nosso tempo é o presente, Curumim
o nosso tempo é agora
mas é também o futura
.
eu te peço, Curumim
não fiques triste
não percas a calma
gosto do teu sorriso, Curumim
e ainda mais da tua risada
.
é, Curumim
o que há de mais delicado na vida
são as metáforas
essa coisa de andar por toda parte
:
o teto da alma, Curumim, é a arte

(Bianca Velloso)


toda despedida é início. início de um outro tipo de relação. relação acrobata, permeada de saudades. e toda crença nasce de uma espécie de cegueira. a gente só acredita naquilo que não pode ver. aquilo que a gente vê a gente aceita. a gente acredita mesmo é naquilo que a gente sente.

caminho à beira do mar. a sentir a água. a consentir a água. a perceber os desenhos que ela faz. creio. creio porque minha cegueira me permite crer. o mar divide os continentes. o mar é o limite entre o lado de cá e o lado de lá. 

digo-te agora tantas coisas. talvez fosse do teu querer ouvir meus devaneios. talvez não. talvez tudo isso só exista no agora, nesse espaço da ausência, como memória que se agarra à pele com receio de não ser. com receio de esquecer o tempo e todos os seus fractais.

talvez eu tivesse deitado no teu colo. talvez a gente parasse para olhar sem pressa a lagoa no arrebol.  talvez eu tivesse chorado no teu abraço. talvez fosses a força da qual precisei. talvez eu fosse o teu porto. o teu silêncio e o teu sorriso. talvez fosse o teu som e o teu choro. talvez escutássemos juntos sambas antigos que tanto me comovem. talvez me contasses teus medos e tuas vontades. teus sonhos.  talvez gostasses da minha poesia, da minha oração. talvez não.

talvez a vida seja simplesmente isso. um talvez. um imenso talvez a narrar nossa (in)capacidade de lidar com a transitoriedade. e se a poesia é efêmera é o amor que nos continua.

(Bianca Velloso)