sexta-feira, 8 de junho de 2018



é no abrupto dos dias
que acontecem os inícios e os fins
.
viver é essa dor latente
:
olha como são belas aquelas cores
.
aquelas cores nas quais não podemos tocar
.
agora escuta
...
é o universo a gargalhar de nós

(Bianca Velloso)

terça-feira, 5 de junho de 2018

repetir
.
repetir
.
redundar à exaustão
.
dizer as mesmas coisas com outras palavras
.
até que se esgote todo o pensar
.
bom mesmo é quando o pensamento vem
s
 o
   l
    t
     o

e

d
 e
  s
   c
    o
   n
  e
 x
o

bom mesmo é ter no que pensar
:
para além do trato cotidiano

(Bianca Velloso)



vivo com foco no presente
num agora sem imediatismos
eu, que tenho aprendido a ser perene
.

teu nome ecoa aqui. tal qual o mar. tal qual o mar que vem e que vai. vem e vai. e vem... e eu hermeticamente imersa na poesia que teu nome principia. é sempre o mar. é sempre água o que trazes contigo. ou será a água que te traz a mim?
.
parte de mim crê no além. outra parte diz que tudo é fantasia. e já nem sei se acreditar faz mal ou bem. a parte que crê às vezes parece sisuda demais. diz que não devo invocar teu nome em vão. que isso pode te aborrecer, te prender... diz que preciso te deixar em paz. a paz às vezes é tão insossa, não é não?

a parte que não crê não é nada científica, muito pelo contrário. e, a despeito da saudade e dos arrependimentos, é brincalhona e curiosa. gosta de cambalhotas e gargalhadas. ela me diz que estás livre, independentemente do meu pe(n)sar. sabe muito bem que pertencemos, tu e eu, a mundos diferentes: o mundo de ser e o de não ser. mas gosta de misturar, de miscigenar, de fazer de nós universos distintos capazes de se visitar.

por isso fiz de ti este interlocutor sempre pronto a escutar e preencher meus silêncios. gosto quando tu vens a fazer cócegas na memória, a me lembrar de que tudo é transitório, menos o amor.
.

a gente tem medo de falar  que ama. amor não é tesão. nem posse. amor tem a ver com afinidade. com liberdade. com o que nos une. o amor é a melhor parte da humanidade.

(Bianca Velloso)


sábado, 2 de junho de 2018

Curumim

o mais complicado, Curumim
são esses dias
em que a gente precisa
driblar a existência
essa coisa de andar por fora
:
fora da linha
fora da lei
fora da casinha
fora do acaso
viver às margens
...
dentro do espaço apertado
(e apartado)
que a história nos impõe
:
o vazio
o frio
o descaso
a íntima intimidação de todo dia
.
não, Curumim
a gente não vai aceitar esse espaço
esse não é o nosso espaço, Curumim
esse, definitivamente, não é o nosso espaço
nosso espaço é imenso
é infinito
o nosso espaço, Curumim
é a igualdade
onde somos todos gente
o nosso espaço, Curumim
é o espaço do amor
:
e por isso lutamos
.
o nosso tempo é o presente, Curumim
o nosso tempo é agora
mas é também o futura
.
eu te peço, Curumim
não fiques triste
não percas a calma
gosto do teu sorriso, Curumim
e ainda mais da tua risada
.
é, Curumim
o que há de mais delicado na vida
são as metáforas
essa coisa de andar por toda parte
:
o teto da alma, Curumim, é a arte

(Bianca Velloso)


toda despedida é início. início de um outro tipo de relação. relação acrobata, permeada de saudades. e toda crença nasce de uma espécie de cegueira. a gente só acredita naquilo que não pode ver. aquilo que a gente vê a gente aceita. a gente acredita mesmo é naquilo que a gente sente.

caminho à beira do mar. a sentir a água. a consentir a água. a perceber os desenhos que ela faz. creio. creio porque minha cegueira me permite crer. o mar divide os continentes. o mar é o limite entre o lado de cá e o lado de lá. 

digo-te agora tantas coisas. talvez fosse do teu querer ouvir meus devaneios. talvez não. talvez tudo isso só exista no agora, nesse espaço da ausência, como memória que se agarra à pele com receio de não ser. com receio de esquecer o tempo e todos os seus fractais.

talvez eu tivesse deitado no teu colo. talvez a gente parasse para olhar sem pressa a lagoa no arrebol.  talvez eu tivesse chorado no teu abraço. talvez fosses a força da qual precisei. talvez eu fosse o teu porto. o teu silêncio e o teu sorriso. talvez fosse o teu som e o teu choro. talvez escutássemos juntos sambas antigos que tanto me comovem. talvez me contasses teus medos e tuas vontades. teus sonhos.  talvez gostasses da minha poesia, da minha oração. talvez não.

talvez a vida seja simplesmente isso. um talvez. um imenso talvez a narrar nossa (in)capacidade de lidar com a transitoriedade. e se a poesia é efêmera é o amor que nos continua.

(Bianca Velloso)


quinta-feira, 31 de maio de 2018

tímidas intimidades

é preciso silêncio para escutar a voz que conta
é preciso silêncio para escutar a voz da escrita
a vida anda muito barulhenta por aqui
exceto quando a gente sonha
.
.
.
às vezes necessito de silêncio. de silêncio. quietude. silencio para contar. contar para mim mesma. conto um contar sem números. um contar sem tempo. conto um contar de conto, de quase canto, de quase acalanto. conto com a memória. conto com o sentimento. conto com as palavras que consigo alinhavar. conto sobre as importâncias e as desimportâncias. conto intimidades. tímidas intimidades que não interessam para ninguém a não ser para mim mesma. 

conto para ouvir tua voz. conto para desenhar teus passos: aqueles que não foram, aqueles que poderiam ter sido, aqueles que são - eternas pegadas impressas naquilo que a gente é. conto sobre o encontro entre sonho e realidade (e quem disse que o sonho não é uma realidade? a realidade interna? a realidade ao revés? a realidade da mente? a realidade que a gente sente?) conto sobre o encontro. porque o conto é o caminho. e é através da narrativa que substancio a vida e a morte. filosofia. talvez seja isso: és para mim uma filosofia. filosofia de amor. e o amor nunca mente.
.
.
.
naquele dia de maio, poucos dias antes do teu aniversário (agora eu sei que é dia 22), tua mãe me encontrou por acaso, me abraçou forte e com os olhos cheios d'água me disse:

- o Ivan quer muito falar contigo.

nos abraçamos novamente, tua mãe e eu, e comemoramos o fato de teres sobrevivido ao acidente, de estares tão bem depois do baita susto que nos deste. disse que te procuraria sim. e logo te procurei. estavas trabalhando na praia, como guia turístico. olhei de longe, estavas muito ocupado. ocupado e feliz. me acenaste com um sorriso (lábios e olhar). segui sem palavras. depois foste tua a me procurar. chegaste em meu consultório. eu estava atendendo, agenda cheia. não conseguimos conversar.

os dias se passaram sem mais notícias nem porquês. dias difíceis, de política intensa e grandes preocupações que nos remetem a um passado tenebroso de torturas imensuráveis e desmedidas privações. até que fui tomar um café na tua casa. foi tua mãe quem me recebeu. tu já não estavas. teu irmão logo apareceu e papo fluía sobre os recentes acontecimentos políticos e sobre a paisagem do teu quintal que está completamente diferente de quando conheci: há agora uma cachoeira de águas quentes e claras. uma cachoeira que deságua na praia. na nossa praia. algumas pessoas se divertiam ali. e era um clima de alegria que nada tinha a ver com toda a tensão desses dias. quando estávamos sentados à mesa, eu na cabeceira, tua mãe à minha direita, teu irmão à minha esquerda, tu apareceste ao meu lado. entre tua mãe e eu. me olhaste nos olhos. profundamente. com olhos tão vivos e tão doces. e mesmo que teus olhos já me dissessem tudo, tua voz foi muito clara:

- muito obrigado por tudo. tu és uma pessoa muito importante para mim.

.
.
.
continua... assim como a vida. fluxo contínuo. rio que deságua no mar.

Bianca Velloso


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

vida sentida ao revés

(ao Ivan)
.
.
.
tuas pupilas estão mudas
e só o amor tem espaço aqui dentro
e ao mesmo tempo que grita e dói
aquece
:
eu sou o teu silêncio que ficou

(Bianca Velloso)
tem horas em que tudo
o que a gente precisa
é da palavra humana
(não da divina)
.
tem horas em que tudo
o que a gente precisa
é de gente que sinta e que sente
de gente que chora como e com a gente
.
porque existem coisas na vida
para as quais não existe consolo
.
a gente só quer ser ouvida
a gente quer um ombro e um colo
.
até que consiga outra hora
sorrir novamente pra vida

(Bianca Velloso)
o método
cadê o método
o dia a dia é fita métrica
que te cobra
:
olha a hora
é agora, é pra ontem
.
no momento em mim
tudo é demora
tempo que se desprende das horas
sentimento agudo
que não se traduz
nem se consola

(Bianca Velloso)

nas ruas das tuas retinas caminho
:
eu sei traduzir pupilas

(Bianca Velloso)

sábado, 20 de janeiro de 2018

das preferências

em tudo eu prefiro o lúdico
caminho sempre pelo lícito
mas o ilícito me atrai.
.
das músicas eu prefiro as canções
dos ritmos, o samba
e em seguida o reggae
.
na real (e também na fantasia)
eu prefiro a poesia
a explícita e a implícita
.
prefiro a arte que implica
aquela que não emplaca na mídia
arte que coloca o dedo na ferida
.
das roupas eu prefiro as saias
e os vestidos caem muito bem
não gosto de usar calças
vez por outra
(quase todo dia)
me apetecem muito os nus

(Bianca Velloso)
(ao Ivan)

eu te amo
com um amor
invisível
.
um amor que
por ser invisível

(justamente por isso)

é invencível
.
um amor invisível
que por isso mesmo

(por ser invisível)

é inventivo
é incentivo
.
um amor
absurdamente
combustível
:
quase comestível
.
amor que aligeira
e alimenta
.
eu te amo
com uma força imensa
com uma força tanta
...
com uma força tanta
que chega a ser delicadeza

(Bianca Velloso)

Imortal

(ao Ivan)

.
a morte não mata o amor
e só o amor sobrevive a morte
.


(Bianca Velloso)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

? ? ?


? ? ?

será que é possível
desvirar o tempo

? ? ?

se a humanidade inteira
concordasse em andar de costas
será que a gente conseguiria
fazer a Terra girar ao contrário

???

como a gente faz
para falar de amor
quando o tempo já não é mais
quando o tempo já se foi
:
foi arredio
.
como a gente faz
para encarar o dia
colocar a memória no colo
e lamber as feridas
.
como a gente faz
para escrever um poema
e não olhar mais para trás

? ? ?

será que é possível
desvirar o tempo

? ? ?

se a humanidade inteira
concordasse em andar de costas
será que a gente conseguiria
fazer a Terra girar ao contrário

???

(Bianca Velloso)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

sobre passagens

Ivan,

Tua partida está doendo. Não imaginei que sentiria tanto. Nem poderia imaginar que seria tão cedo... Ainda não acredito. Ainda quero enxergar teu rosto na rua. Até procuro. Quanto tempo levará para eu parar de lembrar da circunstância da tua morte toda vez que vejo um motociclista por aí?

Tu foste meu primeiro amor. E sei que é amor o que fica dessa história. Nossa história. O pedaço da minha história que te pertence. O pedaço da tua história que me pertence. O encontro e o desencontro. Tantas coisas a memória já levou. Desde domingo, desde a notícia do teu desencarne, não me sais da cabeça. Tantas coisas que não sei de ti, que não lembro, que não tivemos a oportunidade de dividir... Não sei teu prato preferido. Nem a cor predileta. Não sei teu gosto musical. Coisas que escapam da memória. Coisas que ficam. Lembrei do teu gosto por camisa xadrez. Não sei mais o dia do teu aniversário... Algo me diz que é maio... Pura intuição, não sei... Informação que perdi um dia e não encontrei mais... Ao mesmo tempo, este tempo... Este tempo que me engasga no falar e até no escrever... Este tempo... Este tempo de não estares mais aqui... me trouxe o cheiro da casa da tua mãe, o cheiro da tua casa naquele tempo em que havia frequencia em minhas visitas. Um cheiro bom. Muito bom. Um cheiro amado.

E por falar em frequencia, desde domingo que tua imagem me salta com frequência, frequência imensa, mesmo nas coisas mais banais do meu dia. E tem sido difícil até trabalhar (e olha que o trabalho é o local onde esqueço o mundo, gosto demais do que faço). Às vezes é a imagem da despedida. Às vezes é tua imagem na adolescência. Teu sorriso, teus olhos... Imagem esta que não quero esquecer. Imagem que quero reter aqui dentro da mente, do peito, de mim.

A imagem mais bonita que tenho de ti é do nosso último encontro, há uns dois ou três anos, na praia. A gente se abraçou num abraço tão terno... E havia tanto carinho em teus olhos...

Arrependo-me de não ter marcado um café para conversarmos mais... Arrependo-me de não ter te escrito enquanto estavas por aqui... E dói. Dói muito. Lembro que me contaste que tens uma filha. E achei isso tão bonito. Lembro que me disseste o nome dela, mas o nome se perdeu na minha cabeça. Eu também tenho uma filha. Lembro que a tua filha é um pouco mais nova que a minha.

Acredito que hoje entendi o motivo de nosso namoro ter sido abortado logo no princípio. E te amo ainda mais por conta disso. Foi cuidado, proteção. Foi amor.

Queria ter dividido mais o riso contigo. Queria ter divido sabores e saberes. Não temos mais tempo. O tempo te levou. Vai me levar também, mais dia menos dia ele leva... Só não quero te perder na memória.

Acho que nunca te escrevi um poema...Queria te transformar numa palavra. A palavra mais bonita de toda a vida. A palavra que quando dita, bem dita, te trouxesse novamente para mim... Tua imagem, teu riso, teus olhos, tua voz... Vou te escrever um poema, assim como a vida te escreveu em mim. Hoje não consigo, tua ausência está doendo muito. Escrevo melhor na alegria. E é com alegria que quero te celebrar. Hoje só esta carta... Tomara que exista mesmo vida após a morte, Orum. Tomara que recebas minha mensagem, minha ternura, meu afeto, meu amor.

Bianca